O norte-coreano Shin Dong Hyok tinha 14 anos naquele novembro de 1996. Ao lado do pai, observava a multidão que aguardava as execuções de prisioneiros. Presumiu que os dois estariam entre aqueles que morreriam em poucos minutos. Estava errado. Em vez disso, os guardas colocaram sua mãe e seu irmão de 22 anos em frente à mórbida plateia. Ali mesmo, ela foi enforcada. Ele, fuzilado. – Antes de ser executada, minha mãe olhou para mim. Não sei se ela queria falar alguma coisa, porque estava amarrada e amordaçada. Mas evitei os olhos dela – contou Shin ao jornal americano The New York Times.
Essa história é apenas uma dentre tantas outras contadas pelos poucos prisioneiros que saíram vivos de um gulag da Coreia do Norte – campos de trabalhos forçados aos quais pessoas são enviadas após serem condenadas por “trair a nação”, na maioria das vezes com atos incrivelmente banais, como sentar-se sobre um jornal que tenha uma foto do ditador Kim Jong-il na capa ou cantar uma música sul-coreana.
Ali, também sofriam todo tipo de abusos. Entre 20% e 25% do total de prisioneiros morrem todos os anos. E é para onde irão as jornalistas americanas Laura Ling e Euna Lee – condenadas na segunda-feira a 12 anos de prisão por ultrapassarem a fronteira do país ilegalmente – caso não haja um acordo diplomático com os EUA.
Shin nasceu e cresceu em um desses campos, então qual poderia ser o grave crime cometido por um bebê antes mesmo de vir ao mundo? Ele, seus pais e seus irmãos foram vítimas de uma das tristes peculiaridades do sistema judiciário norte-coreano: a condenação por associação.
O erro do bebê foi ser neto de um preso político. Muitas vezes, as três próximas gerações de um condenado também são enviadas para os gulags, mesmo sem terem feito nada. Até hoje, Shin não sabe qual foi o crime que o avô cometeu e que o manteve até os 22 anos no sofrimento dos campos. E ficaria lá até morrer se não tivesse fugido em 2005 – o único a conseguir esse feito. A ideia era dizimar a “família de traidores”.
Crueldade como nos campos nazistas
Assistir à execução de familiares foi só um dos abusos que Shin relata ter sofrido no campo número 15, chamado de Yodok. Pouco se sabe oficialmente sobre esses gulags – o governo norte-coreano não dá informações sobre onde estão localizados, quantos existem e o que acontece dentro deles. Estima-se que há seis ou oito campos principais e dezenas de outros menores que abrigariam cerca de 200 mil condenados.
Os gulags não perdem muito em crueldade para os campos de concentração nazistas. Relatórios de Organizações Não Governamentais (ONGs) de direitos humanos e do Departamento de Estado americano os descrevem como locais onde diferentes tipos de torturas ocorrem diariamente. Muitos prisioneiros são obrigados a ficarem nus em público, a ajoelhar-se ou sentar-se sem se mover por longos períodos, ficar pendurado pelos pulsos, entre outras. As mulheres grávidas sofrem abortos forçados. Os bebês que conseguem nascer são mortos pelos guardas logo depois para evitar que a “família de traidores” siga adiante. Além disso, prisioneiros flagrados em alguma irregularidade podem ser confinados em uma solitária por semanas a fio.
– Por um mês, trancaram um amigo meu em uma cela tão pequena que ele tinha de ficar em pé ou escorado 24 horas por dia. Geralmente, a solitária significava morte – afirmou Kim Gwang Soo, preso em Yodok por três anos, ao jornal britânico The Independent.
Muitos contam que há câmaras de gás nos gulags, onde terríveis experimentos químicos são conduzidos tendo seres humanos como cobaias.
– Normalmente eles colocam as famílias no centro da câmara e prisioneiros individualmente sentados nos cantos. O processo e as reações são acompanhados por cientistas do alto, pelo vidro – contou um ex-guarda norte-coreano ao britânico The Guardian, dizendo que acreditava que tal atrocidade fosse justificada.
Em alguns dos campos, os prisioneiros trabalhavam 15 horas em atividades desgastantes em minas, plantações ou fábricas. Mas há relatos de que, em outros, eles começavam a trabalhar às 5h e eram liberados apenas à 1h do dia seguinte. Havia três refeições iguais: uma tigela com milho cozido a vapor e sopa de legumes. Com a pouca comida, eles comiam o que achavam pela frente: sapos, ratos, borboletas, cobras e gafanhotos. Às vezes, era possível comer pepinos e batatas da plantação, mas arriscando-se a ser punido.
– Quando um professor descobriu que uma menina havia escondido grãos de trigo no bolso, bateu na cabeça dela com uma vara. Ela morreu no dia seguinte – recorda Shin.
Os campos são o que o governo norte-coreano chama de “reeducação por meio do trabalho”. Para os prisioneiros, é uma sentença de morte. (Fonte: Jornal DC)
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